Clima e caldo de galinha

Clima e caldo de galinha

Augusto Neto para o Cana Clipping

Circulou há algum tempo em grupos de WhatsApp um vídeo em que um climatologista sênior afirma não ser o homem capaz de interferir no clima. Ele leva em conta o fato de o ser humano ocupar apenas uma pequena parcela da superfície do planeta – 6%, segundo ele – para concluir que, por isso, não teríamos como alterar o clima global.

Escorado no dado concreto que apresenta, o especialista do clima prossegue levantando hipóteses, dizendo coisas assim: “… portanto, o homem não tem a capacidade de mudar o clima global e todo esse alarde que fazem sobre mudanças climáticas deve ter razões por detrás que nós não temos conhecimento hoje. Talvez a história, no futuro, as elucide”.

O que ouvimos sobre o assunto, no entanto, é bem diferente. Pelo que dizem os cientistas, mesmo ocupando uma pequena parcela da superfície do planeta, o ser humano emite volumes crescentes de gases de efeito estufa e é essa emissão que está aquecendo o planeta.

Eu confesso que fico mais preocupado com aqueles que descartam a possibilidade de uma crise climática do que com os pesquisadores que nos alertam para ela. Afinal, se as mudanças observadas decorrerem predominantemente de causas naturais, como alegam, ao argumento de que situações assim já ocorreram no passado, nossa margem de controle sobre o fenômeno será muito menor. Agora, se a ação humana está intensificando o aquecimento, então existe a possibilidade de agirmos sobre suas causas por meio de medidas como a substituição dos combustíveis fósseis por fontes limpas de energia.

Por fim, vale sempre considerar os riscos envolvidos. Se temos um amplo consenso científico, reconhecido mundialmente, apontando a ação humana como responsável por parcela importante do aquecimento global, por que simplesmente desconsiderar essa possibilidade? Qual o ganho em apostar que o problema não existe e deixar o barco correr solto? Não será mais prudente agirmos da mesma forma como quando contratamos o seguro do carro? Ora, por que fazemos seguro do carro mesmo sabendo serem baixos os riscos de que ele seja furtado ou de que nos envolvamos num acidente? Fazemos o seguro porque um evento desses pode nos custar bem caro. Ou seja, não é o risco em si que nos move a contratar seguro — pois ele é baixo —, mas sim o alto prejuízo que suportaremos caso algum sinistro aconteça.

Então, mesmo para os que duvidam, não seria mais prudente admitir que os cientistas podem estar certos e corrigir o curso? Afinal, se eles estiverem corretos e nada for feito, isso poderá custar muito caro às próximas gerações — e, no limite, colocar em risco a própria sobrevivência da humanidade. E como já disse uma vez o saudoso Millôr Fernandes, morrer é algo que a gente deve deixar para depois!

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Augusto Assis Cruz Neto é advogado, possui MBA em Agronegócio e conta com mais de 25 anos de atuação no setor sucroenergético como advogado e gerente jurídico da Cosan/Raízen. É também produtor e editor do Cana Clipping (www.canaclipping.com). Foto: ANeto.

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