Biometano: chamada da Petrobras pode abrir novas oportunidades para o setor sucroenergético

Biometano: chamada da Petrobras pode abrir novas oportunidades para o setor sucroenergético

Análise Cana Clipping

A Petrobras abriu uma chamada para aquisição de biometano, com previsão de fornecimento a partir de 2027 e possibilidade de contratos de até dez anos. A iniciativa chama a atenção do setor sucroenergético porque as usinas de açúcar e etanol dispõem de matérias-primas que podem ser utilizadas na produção desse combustível renovável, especialmente a vinhaça e a torta de filtro, resíduos gerados no processamento da cana-de-açúcar. Por meio da biodigestão desses materiais, é possível produzir biogás, que, após passar por um processo de purificação para retirada do gás carbônico e de outras impurezas, transforma-se em biometano. Com características semelhantes às do gás natural, o combustível pode ser utilizado em aplicações industriais e contribuir para substituir fontes fósseis de energia.

Um novo aproveitamento para os resíduos da cana

A produção de biometano representa uma possibilidade de agregar valor a materiais que já fazem parte da rotina industrial das usinas. A vinhaça, resultante da fabricação de etanol, e a torta de filtro, proveniente do tratamento do caldo da cana, podem ser encaminhadas a biodigestores para a produção de biogás. Depois da purificação, o biometano pode ser comercializado como combustível renovável. Além da receita potencial com a venda do gás, o processo permite ampliar o aproveitamento energético dos resíduos e diversificar as atividades das empresas sucroenergéticas.

Empresas do setor já desenvolvem projetos

Algumas companhias demonstram que essa possibilidade já ultrapassou a etapa experimental. A Cocal possui unidades de produção de biometano em Narandiba e Paraguaçu Paulista, no interior de São Paulo. A Raízen também desenvolve projetos a partir de resíduos da cana, incluindo uma unidade no Bioparque Costa Pinto, em Piracicaba. A empresa já manteve entendimentos com a Petrobras para estudar oportunidades envolvendo produção, compra, venda e logística de biometano. A São Martinho colocou em operação uma unidade de produção na Usina Santa Cruz, em Américo Brasiliense (SP). A Adecoagro também desenvolve iniciativas de aproveitamento de resíduos agroindustriais para produção de biogás e biometano.

Esses exemplos mostram que existe experiência e capacidade tecnológica no setor para avançar nesse mercado. Entretanto, não significam que essas empresas estejam inscritas na chamada da Petrobras ou que tenham volumes disponíveis para novos contratos. A disponibilidade comercial depende da produção efetiva, de compromissos de venda já assumidos e das condições de entrega.

Quem poderá fornecer à Petrobras?

A chamada da estatal desperta o interesse de produtores de biometano, mas é necessário observar as condições específicas de habilitação e contratação estabelecidas pela Petrobras. Não se deve confundir o potencial de uma usina para produzir o combustível com sua efetiva capacidade de participar do processo. Uma empresa que ainda não possui uma unidade de produção, por exemplo, precisaria avaliar se seu projeto atende às condições exigidas pela companhia, inclusive quanto a prazos, volumes, qualidade e logística.

O fornecimento também exige atenção à infraestrutura. Dependendo da localização da unidade produtora e do destino do gás, a entrega poderá envolver conexão com redes de distribuição ou transporte rodoviário em condições apropriadas. A viabilidade econômica dependerá não apenas do custo de produção, mas também do investimento necessário para purificação, compressão, armazenamento e transporte.

Contratos longos podem estimular investimentos

A possibilidade de contratos de até dez anos é um dos aspectos mais relevantes da iniciativa. Para projetos que exigem investimentos elevados em biodigestores e equipamentos de purificação, a perspectiva de um comprador de grande porte e de uma relação comercial duradoura pode melhorar a previsibilidade dos negócios. Para a Petrobras, a aquisição de biometano representa uma alternativa para substituir parte do gás natural de origem fóssil utilizado em suas operações.

Para o setor sucroenergético, abre-se uma perspectiva adicional de diversificação: além de açúcar, etanol, energia elétrica e outros produtos, os resíduos da cana podem dar origem a um combustível com mercado próprio. O avanço dessa oportunidade, porém, dependerá das condições comerciais da chamada, da competitividade do biometano e da capacidade dos produtores de garantir fornecimento regular. Mais do que uma oportunidade imediata para todas as usinas, trata-se de um mercado em desenvolvimento que pode estimular novos investimentos e ampliar o aproveitamento energético da cadeia da cana-de-açúcar.

Foto: Canva. Fonte: Forbes Agro; Petrobras; informações institucionais das empresas.

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