Escala 6×1: o outro lado da moeda

Escala 6×1: o outro lado da moeda

Augusto Neto para o Cana Clipping

Muito se tem discutido sobre a proposta de extinguir a escala 6×1. E, sem dúvida, um dos pontos mais relevantes desse debate é a preocupação dos empregadores com os impactos econômicos decorrentes de uma eventual mudança desse modelo. Trata-se de um argumento legítimo e que merece ser levado a sério.

O raciocínio é conhecido: a redução das horas disponíveis de trabalho exigiria reorganização das jornadas, novas contratações, pagamento de horas extras e maior esforço operacional para manter o mesmo nível de atividade.

Em setores intensivos em mão de obra — como comércio, indústria, saúde, logística, alimentação, serviços e também diversas atividades do agronegócio — essa preocupação tende a ser ainda mais sensível. Em muitas operações, simplesmente não é possível interromper a produção ou reduzir o atendimento sem consequências econômicas.

Sob essa perspectiva, há pouco espaço para contestar a lógica: se a produção precisar ser mantida, menos horas disponíveis de trabalho provavelmente significarão aumento dos custos operacionais. Trata-se de uma consequência bastante previsível.

Os defensores do fim da escala 6×1 contrapõem esse argumento afirmando que trabalhadores mais descansados, com melhor qualidade de vida e maior tempo para a família e para os cuidados pessoais tendem a apresentar ganhos de produtividade, redução do absenteísmo e menor rotatividade, compensando, ao menos em parte, o aumento inicial dos custos. É uma hipótese que merece ser considerada e que encontra exemplos em experiências internacionais, embora seus resultados variem conforme o setor e a realidade de cada país.

Mas não é esse o ponto que pretendo explorar. Voltemos ao aumento dos custos e, finalmente, ao título deste artigo.

Se o fim da escala 6×1 representa um custo adicional para a empresa, também é verdade que o modelo atual produz um ganho econômico decorrente da maior disponibilidade de horas de trabalho. São, na realidade, as duas faces da mesma moeda.

E isso nos leva a uma reflexão importante: de onde vem esse ganho econômico? Em boa medida, ele decorre do fato de que milhões de trabalhadores dedicam seis dias da semana à atividade profissional, restando-lhes apenas um dia para descansar, conviver com a família, cuidar da saúde e resolver as demandas da vida cotidiana.

Em outras palavras, parte da eficiência econômica proporcionada pela escala 6×1 resulta justamente da forma como o tempo de vida é distribuído entre empresa e trabalhador. Esse tempo tem valor econômico para a empresa, mas também possui valor humano para quem o dedica ao trabalho.

Por isso, se não parece razoável imaginar que todo o impacto financeiro de uma eventual mudança recaia exclusivamente sobre as empresas, também parece legítimo perguntar se o custo humano desse modelo deve continuar sendo suportado predominantemente pelos trabalhadores.

Não se trata de ignorar as dificuldades econômicas que uma mudança dessa natureza pode provocar. Tampouco de desconsiderar a importância de empresas competitivas para a geração de empregos e riqueza. Trata-se apenas de reconhecer que a discussão envolve dois valores igualmente relevantes: a sustentabilidade econômica da atividade produtiva e a dignidade de quem trabalha.

A discussão sobre a escala 6×1, portanto, não deveria se limitar ao aumento dos custos ou à redução da jornada. Ela envolve produtividade, competitividade, distribuição do tempo, geração de riqueza, valorização do trabalho e a forma como a sociedade escolhe repartir os benefícios e os custos do desenvolvimento.

Olhar apenas para um desses aspectos é enxergar apenas um lado da moeda.


Augusto Neto é advogado, com MBA em Agronegócio e mais de 25 anos de atuação no setor sucroenergético. É produtor e editor do Cana Clipping (www.canaclipping.com).

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