Carlos Magano para o Cana Clipping

Se você acompanha o agronegócio, já percebeu: 2026 é um ano de contrastes. De um lado, o Brasil caminha para safras recordes e exportações históricas. De outro, um El Niño que pode ser um dos mais fortes das últimas décadas ameaça transformar esse potencial em dor de cabeça — e a logística portuária, que já opera no limite, é quem vai sentir primeiro.
Passei os últimos dias mergulhando nesse cenário e quero compartilhar o que no meu entender os números mostram.
1. O CLIMA QUE DIVIDE O PAÍS
O El Niño 2026/27 não é uniforme — e é aí que mora o perigo. A Bloomberg Intelligence estima 82% de chance do fenômeno se consolidar, com 25% de risco de um evento “muito forte”. Na prática:
● Sul: chuva em excesso, risco de inundações e problemas na colheita.
● Norte/Nordeste (Matopiba): seca, calor e estresse hídrico.
● Sudeste/Centro-Oeste: chuvas irregulares que atrasam o plantio.
Cada cultura reage de um jeito. A cana ganha volume, mas perde qualidade. A laranja já projeta quebra de 12,9% na safra. A soja tem o Sul compensando parcialmente as perdas do Matopiba. E o milho — o mais sensível — vê a janela da safrinha se fechar, repetindo o que já custou cerca de 10 milhões de toneladas na safra anterior.
2. A LOGÍSTICA NO LIMITE
O que pouca gente conecta é que todo esse volume precisa sair pelos portos — e eles já estão operando no teto. Em 2026:
● Santos movimentou 92,8 milhões de toneladas no semestre, com 2,4 milhões de TEU em contêineres.
● Paranaguá vive uma “megaexportação” de soja e milho safrinha, com 835 mil TEU.
● São Sebastião projeta recorde de 1,6 milhão de toneladas, puxado pelo açúcar.
E o escoamento terrestre? Caminhões chegam a 15 mil por dia em Santos na safra, as ferrovias (Rumo, com R$ 6 bilhões em investimentos) correm para ampliar a Malha Paulista, e os dutos — como o terminal da Transpetro em São Sebastião — respondem pelos granéis líquidos.
O transporte representa até 40% do custo de exportação dos grãos. Ou seja: de nada adianta produzir recorde se o gargalo logístico come a margem.
3. O QUE ISSO SIGNIFICA PARA QUEM ESTÁ NO CAMPO
A lição é clara: planejamento antecipado vale mais que produtividade. Quem atrasou o plantio do milho na safrinha 2026 sentiu na margem. Quem não se preparou para o El Niño vai sentir na próxima safra.
O clima deixou de ser variável de fundo para virar o principal fator de decisão — do plantio à venda, da escolha do porto à contratação do frete.
E você? Como está se preparando para o El Niño na sua região? Acompanha o escoamento da sua safra pelos portos? Me conta nos comentários, pois esra conversa está longe de terminar (escreva para canaclipping@canaclipping.com.br).
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Carlos Eduardo Bueno Magano é especialista em Gestão Portuária e Infraestrutura Logística, mestre pela Poli/USP e autor da obra “Porto entre o Poder e a Desordem”. Atuou em posições executivas e de direção na Gomeatinga Consultoria, Rumo Logística/Cosan Operadora Portuária, TEAS, FIESP e CODESP.
Foto: ANeto. A matéria reflete a opinião exclusiva do autor.